sexta-feira, 9 de outubro de 2009

"Dias de Chuva"


Eu amo dias de chuva, os amo tanto que por mais que faça frio o meu coração fica aquecido, como em um abraço carinhoso, me sinto extremamente confortável, a claridade acinzentada, os arrepios, as gotas escorrendo pela janela, o silêncio quebrado pelo som da água caindo... Ah! como gosto de contemplar essa paisagem pela minha janela, me sinto totalmente envolvida e tudo, qualquer detalhe para mim sempre é uma doce novidade.

Normalmente as pessoas não gostam de dias de chuva, ficam incomodadas e irritadas, o trânsito fica ruim, o ônibus lotado aborrece ainda mais, os pés ficam sempre frios, não sabemos o que fazer com guarda chuva molhado, carros espirram lama em quem der mole, e eu compreendo, porém, para mim, dias de chuva significam muito mais do que suas consequências, sinto-me tocada pelo sentimento de paz, sinto-me lavada quando ela cai, sinto-me grata, sinto-me abençoada.

Trabalhei por anos seguidos, um trabalho que após algum tempo se tornou muito cansativo, e nos dias de chuva sempre parava perto de alguma janela e a contemplava, alguns segundos eram suficientes para me animar a continuar trabalhando, quando pegava o ônibus, me sentia bem mesmo em pé, espremida entre tantos estranhos, só de vê-la escorrendo pela lateral da janela, os desenhos formados pela água espalhada pelo vento, era o suficiente para me absorver e me fazer aguentar mais uma hora em pé, é realmente estranho.

Mas, porque gosto tanto? Talvez seja porque em meu coração sempre chova ou talvez porque em dias de chuva eu olhe para dentro de mim com olhos de verdade, talvez porque me lembre de algo ou então, por ser de uma familia de trabalhadores do campo, a respeito pelos beneficios que traz para a terra e a natureza, talvez não seja nada disso, talvez, eu apenas goste, apenas aprecie, apenas veja beleza em cada gota, na poça, nas sombrinhas compartilhadas, nas folhas balançando agradecidas, no céu inteiro pintando do mesmo tom de cinza, que só percebo nos frios dias de chuva.


"Assim como desce chuva e a neve dos céus, e para lá não torna, mas rega a terra, e a faz produzir, e brotar, e dar semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a enviei."

Isaias 55:10-11

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

"Meus Momentos"






Esses dias meu irmão ganhou um filhote de cachorro, sabe, filhotes aqui em casa não são anormais, temos um quintal imenso e sempre tivemos muitos cachorros, ele deve ter uns dois meses e é realmente adorável, é todo bege com focinho preto e patas brancas, e como o vira-lata ganhou o nome de um personagem de desenho animado que eu e meu irmão gostamos, aliás, eu que sugeri o nome, acho que isso significa que eu gosto mais, bem, vamos deixar pra lá.

Mas o que quero relatar é que eu não me lembro sobre o que pensava há alguns anos atrás quando observava nossos animais, apesar de não assumir os compromissos que eles traziam (e isso sempre gerar muitos conflitos), eu os amava, sentia, mas não prestava atenção, e olhar o filhote distraído, mordiscando os dedos dos meus pés enquanto estudo para minhas provas, me despertou uma grande curiosidade que me fez pausar um pouco para escrever.

Esforçei-me para lembrar como foi quando me apaixonei pela primeira vez, o que senti quando terminei com algum namorado, como eu era como aluna no primário, como me comportei a primeira traição de um amigo, o porque de ter repetido o ano na escola, quando decidi começar a trabalhar e percebi que todas essas situações passaram como o vento, algumas vezes suave como uma brisa, outras, como um furacão levando árvore e vacas, passaram e eu apenas me agasalhei ou arrumei a bagunça.

Todos nós temos algo que gostamos, digo, em termo de sabor, quando minha mãe ou eu faço algum de meus pratos favoritos, eu não como, eu devoro como se fosse minha última refeição e quando acaba sempre fico com aquela sensação leve de arrependimento, de que deveria ter aproveitado mais, sei que se comesse devagar não esqueceria tão rápido o gosto, sim, o gosto, porque o que fica na minha memória é a sensação de satisfação, mas o gosto? Tenho que comer de novo para me lembrar, e é por isso que balança é a minha inimiga declarada já à algum tempo.

Eu percebi que o mesmo acontece com relação a minhas experiências, as vivo com tanta intensidade que logo esqueço do seu valor e de como acrescentam, se são ruins, fecho os olhos com força torcendo para que o sofrimento acabe rápido, se são boas, as devoro com avidez e quando vejo já acabou, sempre me questionei de porque os momentos tristes serem longos e os felizes curtos e me dei conta de que é porque eu não os saboreio, se saboreasse veria que o amargo não é tão ruim quando misturado com outra coisa, se saboreasse veria que o delicioso fica ainda mais delicioso quando mastigado devagar.

Se tivesse me dado conta disso antes, teria aproveitado mais o meu primeiro beijo, o que não o fiz (eu fiquei tão nervosa que congelei, o empurrei e corri), teria feito diferente na traição do amigo, porque saberia que estava sendo egoísta em considerar apenas os meus sentimentos (o que não percebi e levei anos para perdoa-lo), teria me divertido mais naquele lugar, teria sido mais maleável em minhas decisões e tantas outras coisas, na maioria das vezes me portei como uma tola, não poderei nunca mais voltar atrás.


"No dia da felicidade, sê alegre; no dia da desgraça, pensa; porque Deus fez uma e outra, de tal modo que o homem não descubra o futuro."


Eclesiastes 7:14


Deus me permitiu viver até aqui, dias de felicidade, dias de desgraças, fez ambos para que eu seja forte no futuro, nem sempre fui alegre, nem sempre pensei, não saboreei os meus momentos, já esqueci de coisas que não deveria, fechei meus olhos quando deveria mante-los bem abertos, porém, com esse fofo filhotinho dormindo nos meus pés, confortável e alheio ao mundo, percebi que ainda não é tarde.