domingo, 18 de abril de 2010

Olhar as estrelas...


Olhar as estrelas era uma das brincadeiras mais comum da minha infância, acreditava em fazer pedidos a estrelas cadentes e que apontar para elas fazia nascer verrugas na ponta dos dedos, mas, o que me recordo muito bem foi da primeira vez em que realmente vi o céu estrelado e foi quando no periodo das férias escolares do verão, eu com uns oito ou nove anos de idade viajei com minha mãe e irmãos para o interior do Rio de Janeiro, para casa de meu tio, um lugar longe de tudo e todos, totalmente isolado, duas horas de ônibus da cidade até o bairro e depois mais duas horas a pé morro acima e mata a dentro, a casa dele ficava no meio de um vale, sem água encanada, sem eletricidade, sem gás e para nós, tudo era o máximo, uma grande aventura.

Quando chegamos meu tio estava preparando a terra para o plantio de arroz, de um lado havia uma plantação de milho, do outro pés de café, mais acima feijão, o curral com algumas vacas, bois e cavalos, muitas galinhas e meu tio, tia e primos sorridentes e felizes com a nossa chegada, tudo era divertido, andar descalço, explorar as plantações, fugir dos marimbondos gigantes, pescar, subir nas árvores, atravessar as cercas, tomar banho de cachoeira, correr de cobras, ordenhar e implicar com as vacas, andar de cavalo, ajudar na colheita e na alimentação dos animais, acordavamos com as galinhas e as 19 horas todos nós estavamos exaustos e caçando a cama pra dormir.

Tomar banho a noite na nascente também era incrível, eu e minhas primas com sabonete, shampoo e condicionador disputando o chuveiro natural sob o céu estrelado rindo muito, fantansiando que no meio daquele nada havia alguém escondindo olhando pra gente, outra coisa que também fazíamos muito era contar histórias de fatos sobrenaturais que por incrível que pareça em lugares assim se tornam verdade absoluta (confesso que no meio daquela escuridão também tive muitos momentos de pânico).

Mas, deixando de lado minhas recordações o que realmente me marcou nessa aventura toda foi o dia em que após o banho e jantar aquela comida maravilhosa feita no fogão de lenha, todos nós forramos lençóis no quintal e fomos "Olhar as estrelas", o clima estava fresco e a noite agradável, eu ainda não tinha tido tempo pra reparar naquele céu, estava extasiada com o excesso de novidades e não reparei que o céu de lá era completamente diferente do que eu conhecia até então, naquele lugar isolado vi o céu como ele realmente é, ESTRELADO, não havia um espaço que não tivesse uma estrela piscando, algumas se movendo, trocando de lugar umas com as outras, não vi uma estrela cadente mas sim uma rápida e pequena chuva de estrelas correndo pelo céu e eu fiquei sem palavras, naquela noite fiz muitos pedidos e fui totalmente arrebatada por aquela visão, eu não consigo descrever com palavras a beleza daquele cenário.

Muitos anos se passaram desde então, e dias desses me lembrei dessa doce experiência, estava sozinha e me sentia totalmente sufocada e então apaguei todas as luzes e me deitei no quintal, o céu é o mesmo mas o excesso de luz da cidade ofusca o brilho das estrelas e céu da metrópole, comparado com o do interior parece banguela, mas, mesmo assim, sem perceber fiquei por três horas seguidas olhando apenas o céu, não havia nada, apenas eu e as estrelas...


Pensei em muitas coisas, olhando fixamente para as estrelas, o mundo e o universo são infinitamente imensos, meus olhos não alcançam o seu fim, fui derrotada e consolada pelo imensurável
, depois disso, sempre que me sinto sufocada eu olho para o céu e procuro pela brilho das estrelas, não importa onde esteja, me perco olhando para o céu, nessas horas me lembro que sou pequena, que minha existência é frágil e que não importa o que eu esteja enfrentando ...vai passar... se você me ver assim, isolada olhando pro alto, não me interropa, todo mundo uma hora precisa respirar e eu respiro ao olhar as estrelas...