sábado, 28 de junho de 2014

O Guarda Chuva





Havia tido uma semana desgastante e um fim de semana de decepções. Levantei da cama como se tivesse todo peso do mundo em minhas costas. Arrastei-me pela casa, arrumando minhas coisas para sair, enquanto lá fora caia uma chuva pesada e eu não me importava, pois estava como aquela segunda feira: cinza, fria, chuvosa, triste e cheia de má vontade. Como era comum em minha rotina me atrasei para sair de casa. A chuva tinha dado uma pausa e, mesmo saindo às pressas, perdi o ônibus. Iria novamente chegar atrasada no trabalho, mas estava tão indiferente e alheia a tudo, que não me incomodei. Continuei andando com passos pesados, olhando para o chão, para a lama, para meus pés, para as poças d'água. Eu não queria pensar. Meu coração doía não apenas pelas feridas, mas principalmente por estar chegando a triste conclusão de que o amor não existia em mim e em ninguém mais.

Enquanto caminhava, cogitei voltar à casa e me desligar de tudo, ao menos por algumas horas. Continuei, no entanto, em frente e, ao chegar ao ponto, lembranças que estava evitando viam e iam como ondas espumosas e furiosas em meu mar de pensamentos escuros. Olhando para o chão, eu não via nada nem ninguém, e, com minha mente barulhenta, não ouvia nem o som dos carros passando. Concentrada e lutando contra minhas angústias, não notei a chuva voltando a cair, e foram as gotas geladas que me trouxeram à realidade. Levantei meus olhos e mecanicamente levei a mão à bolsa para pegar o guarda-chuva. Ele não estava lá. Nesse momento, fui assaltada por uma súbita compreensão: minha vida, em resumo, estava como aquele momento – sem esperança e sem guarda-chuva. Pus-me a refletir que não podemos controlar as mudanças climáticas, porém, podemos nos respaldar nas previsões e sair de casa com casaco, sapatos fechados e um guarda-chuva. Entendi que não é diferente com o coração. Não podemos controlar as mudanças dos nossos sentimentos e de outras pessoas, mas podemos prestar atenção à nossa volta e nos resguardar com amor próprio, com sensatez e com uso da razão. Então eu não tinha controle, não prestava atenção, não estava de sapatos fechados, não era sensata e esqueci-me do guarda-chuva.

A chuva apertou e um nó se fez em minha garganta, como é ruim ver-se vulnerável, e minha tristeza deu lugar a uma dor funda. Senti as forças fugirem de mim e os meus olhos arderem. Pensei em Deus e no porquê dele me deixar sempre tão sozinha, no porquê em me permitir trilhar caminhos tão espinhosos, e senti um abandono tão cruel quanto se estivesse caindo em um abismo escuro. Já sem conseguir conter as lágrimas, com frio e perdida em pensamentos, não notei que não estava mais me molhando. Demorei alguns segundos para ver que, apesar da chuva estar mais intensa, ela havia cessado sobre mim. Ao levantar meus olhos, vi uma estranha ao meu lado e ela me cobria com o seu guarda-chuva. Ela estava no ponto comigo o tempo todo e não notei. Eu me assustei e olhei para ela sem compreender o porquê dela fazer aquilo. Então, entendendo minha reação, ela logo me disse: “meu guarda-chuva é grande e quero dividi-lo com você, não me custa nada!” e sorriu.

Sorri desconcertada e timidamente agradeci. Minha voz saiu baixa e embargada, continuei chorando e, em nosso silêncio, me esforcei para que ela não percebesse minhas lágrimas. Ela encostou o seu ombro no meu e eu fui aquecida até o fundo da alma. Eu não estava mais sozinha, e vi Deus naquele gesto, debaixo daquele guarda-chuva e por trás daquele sorriso. O ônibus veio, agradeci mais uma vez à moça e, ao embarcar e me sentar, fechei os meus olhos e agradeci a Deus. Um pequeno gesto de gentileza e amor quebrou toda a dor que tomava meu coração. Em silêncio e com lágrimas eu adorei ao Senhor, este Deus imenso que, como Davi descreve nos Salmo 113, se inclina para ver o que está no céus e na terra. Naquela segunda-feira cinza e afundada em tristeza, eu vi Deus se inclinar e me olhar nos olhos. Ao chegar no trabalho, meu coração não doía mais. Estava sarada! Esse acontecimento mudou meu dia, minha semana, minha vida. Deus usou aquela mulher e ela não sabe disso. Não a conheço, mas a sua atitude me mostrou que ela tinha amor em seu coração, a ponto de ajudar alguém que não conhecia, mesmo que com um simples gesto. 

O amor que eu pensava não existir se manifestou de uma maneira surpreendente, tomou e preencheu meu coração. Deus estava atento a mim e veio ao meu encontro e me protegeu com seu imenso guarda-chuva de amor e graça e me disse: ele é grande e quero dividi-lo com você! Chuvas são necessárias e inevitáveis, mas o meu grande guarda-chuva sempre estará aqui para te proteger.