quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Meu pé de feijão


Acredito que, durante a infância, todos nós tivemos a experiência de colocar um feijão em algodão úmido dentro de um copo na janela. 

Lembro que, ao fazer tal experiência, fiquei muito ansiosa e várias vezes olhava dentro do copinho. Queria ver logo o resultado e fui ficando frustrada, porque nos primeiros dias nada aconteceu. O algodão ficou roxinho, o feijão inchado e só.

Reclamei com minha mãe e quis desfazer tudo. Tinha certeza que o feijão estava com defeito, mas minha mãe me disse apenas para pôr mais água. Fiquei irritada e disse que não iria colocar porque nada estava acontecendo, ao que ela, com toda sua sabedoria adulta, respondeu: “Você quer apanhar? Cale sua boca e faça o que estou mandando. É seu dever de casa e não quero queixas de sua professora!”. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Coloquei água com má vontade.

Como criança, não entendia e queria ver logo o resultado, a mudança, o crescimento. Não aconteceu como eu quis, mas, obediente, continuei com a experiência. Pus água e me desapeguei da minha semente de feijão. Passaram uns dias e, quando fui olhar no copo, a semente já estava diferente – tinha algo saindo de dentro dela. Eu me animei, umedeci mais um pouco o algodão e fui me distrair vendo TV.

Passaram-se mais uns dias sem que eu lembrasse do copo na janela e, quando lembrei e fui ver, havia um pé de feijão dentro do meu copinho. Nossa, como fiquei feliz e orgulhosa! Ele cresceu lindo e forte, e eu o levei para escola com orgulho. O meu pé de feijão era o mais bonito, o maior, o melhor e muito especial, muito mais que de todos os meus coleguinhas, porque ele era meu.

Hoje entendo que aquele pé de feijão não era apenas o meu projeto de Ciências, mas também minha ansiedade, minha frustração, minha espera, minha má vontade e minha grata surpresa e felicidade ao ver e descobrir que ele não estava com defeito!

Lembrei-me disso ao notar como fico constantemente ansiosa e de como isso se torna, quase sempre, um problema.

Tenho estudado o DSM -V e o CID 10 (sistematizações sobre transtornos mentais) e lido tantos artigos sobre o assunto, que sei que perder o controle sobre isso me levará a um caos generalizado. A ansiedade é a mesma para mim e para o resto do mundo: quando nos deixamos levar por ela, perdemos o encanto da espera. A ansiedade tira a beleza da novidade, rouba a alegria da surpresa.

Recordar dessa tenra experiência da minha infância, mostrou que meu pé de feijão para o projeto de Ciências me ensinou muito mais do que plantas surgindo de dentro de sementes, e alimentando-se de água e luz solar. Ensinou-me também que eu, algumas vezes, não devo me precipitar pulando etapas. A vida e o mundo têm o seu próprio tempo e é legal, sim, sentar-se e ver Scooby Doo enquanto espero o que quero, e preciso, que aconteça, ou deixe de acontecer. Existe beleza em tudo.

O tempo determinado de todas as coisas é tão importante quanto o acontecimento. Esperar é chato, mas traz consigo incríveis resultados, regados de maravilhosas emoções. Obediência e disciplina são amargas no início, mas doces no final e nos acrescentam anos de vida. Não é preciso ir longe nos pensamentos, basta lembrar de dietas rigorosas que médicos nos receitam e a emoção que surge a cada quilo perdido, ou do nossos pais, que tanto criticamos, e, ao envelhecer, nos vemos semelhantes. As pesadas cobranças dos nossos gerentes e diretores repetidas por nós quando alcançamos os mesmos cargos. Existem regras idiotas em todos os lugares, até mesmo nas fórmulas chatas e tão úteis das planilhas do Excel, dor de cabeça que quebra o maior galho.

Etapas não devem ser puladas, não é certo querer forçar o corpo e correr à frente dos outros, se não estamos nas Olimpíadas ou em qualquer outra competição esportiva. Não devemos desanimar quando nada acontece sob nosso ponto de vista. No final, o resultado vai muito além do cansaço, do esforço e espera, pois, no fim, a recompensa será nosso próprio crescimento. Lance e plante boas sementes. Aguarde. Após alguns dias, o pé de feijão, seja ele qual for, irá crescer e dar muito orgulho, e, feliz como eu fiquei um dia, você também se gabará por ele, por ser seu e somente seu.