segunda-feira, 11 de maio de 2015

"Reflexão"

Carmelita
de Max Lucado

O ar quente pairava pesado na pequena capela do cemitério. Os que tinham leques usavam-nos para refrescar-se. Havia muita gente. As poucas cadeiras colocadas foram logo ocupadas. Eu encontrei um canto vazio de um lado e fiquei ali de pé, observando meu primeiro funeral brasileiro. 
Sobre suportes no meio da capela tinha sido colocado o caixão e nele o corpo de uma mulher morta num acidente de carro na véspera. O nome dela era Dona Neusa. Eu a conhecia por ser mãe de um de nossos primeiros convertidos, Cesar Coutinho. Ao lado do caixão: Cesar, sua irmã, outros parentes e alguém muito especial com o nome de Carmelita. 
Ela era uma mulher alta, de pele escura, quase negra. Naquele dia seu vestido era simples e seu rosto solene. Ela olhava fixamente para o caixão com seus olhos castanhos e fundos. Havia algo de nobre na maneira como ficava ali de pé ao lado do corpo. Ela não chorava aberta-mente como os demais. Nem procurava consolo com os outros enlutados. Ela só ficou ali, curiosamente quieta. 
Na noite anterior eu acompanhara Cesar na delicada missão de contar a Carmelita que Dona Neusa morrera. Enquanto nos dirigíamos para a casa dela, ele explicou-me como Carmelita fora adotada em sua família. 
Mais de vinte anos antes, a família de Cesar visitara uma pequena cidade no interior do Brasil. Eles encontraram ali Carmelita, uma órfã de sete anos, vivendo com parentes pobres. A mãe dela tinha sido uma prostituta. Ela nunca conhecera o pai. Depois de ver a criança, Dona Neusa sentiu-se comovida, sabendo que se não interferisse, a pequena Carmelita estava condenada a uma vida sem amor nem atenção. Por causa da compaixão de Dona Neusa, Cesar e sua família voltaram para casa com um novo membro. 
Enquanto eu me encontrava ali na capela funerária e olhava para o rosto de Carmelita, tentei imaginar as suas emoções. Como a vida dela tinha mudado. Fiquei pensando se a sua mente revivia as lembranças da infância quando subira num carro e se afastara para viver com uma família estranha. Num momento ela não tinha amor, um lar, nem um futuro; no momento seguinte obtivera essas três coisas. 
Meus pensamentos foram interrompidos pelo ruído de pés se arrastando. O velório terminara e as pessoas deixavam a capela para assistir ao enterro. Por causa de minha posição, bem no canto do prédio, fui o último a sair. Ou pelo menos pensei que fora. Enquanto andava ouvi uma voz suave atrás de mim. Voltei-me e vi Carmelita chorando silenciosamente ao lado do caixão. Comovido, parei na porta da capela e assisti o seu tocante "adeus". Carmelita estava sozinha pela última vez com sua mãe adotiva. Havia sinceridade em seus olhos. Era como se ela tivesse uma tarefa final a cumprir. Ela não se lamentou em voz alta, nem gritou de dor. Simplesmente inclinou-se sobre o caixão e o acariciou ternamente como se fosse o rosto da mãe. Com lágrimas silenciosas caindo sobre a madeira polida ela repetiu várias vezes, "Obrigada, obrigada". 

Uma despedida final de gratidão. 

Ao voltar para casa pensei que nós, de muitas formas, somos como Carmelita. Nós também somos órfãos amedrontados. Nós também não tínhamos nem ternura nem aceitação. E nós também fomos resgatados por um visitante compassivo, um pai generoso que nos ofereceu uma casa e seu nome.
Nossa resposta deveria ser exatamente a mesma de Carmelita, uma reação comovente de gratidão sincera pela nossa libertação. Quando ninguém mais daria por nós nem sequer o tempo de um dia, o Filho de Deus nos deu o tempo de nossa vida! 
Nós também deveríamos nos colocar na companhia silenciosa daquele que nos salvou, e chorar lágrimas de gratidão, oferecendo palavras de agradecimento. Pois não foram nossos corpos que ele resgatou, mas nossas almas.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

On-line (Conto)




Nos conhecemos on-line. Nos esbarramos por acaso. Algo chamou a atenção dela e algo chamou a minha atenção e então nos tornamos amigos virtuais. On-line conversávamos todos os dias, ríamos juntos todos os dias, sem nenhuma defesa comecei a sentir falta dela quando não estava lá e ela disse estar sentindo a minha também. On-line eram nossas vidas juntos, eu em um estado e ela em outro, então ela partilhou um pouco de seus segredos e eu, encantando com sua doçura entreguei alguns dos meus. Ela era engraçada, inteligente, sensível, ela se importava comigo, reconhecia minha existência, uma estranha on-line que me levou pela mão pelos estranhos caminhos do amor.

Quando percebi já estava muito envolvido e ela dominava minha cabeça, acordava de manhã e ela estava lá, andava pelas ruas e ela estava lá, ia dormir a noite e me revirava na cama pensando nela, e nela e nela, eu passei a ficar on-line 24 horas por ela, não importava mais nem o dinheiro curto, então, em uma conversa já sem conseguir me segurar eu disse: Eu te amo! Ela enviou risos virtuais, me chamou de lindo e nada mais e eu esperei. E de repente o que era fácil ficou difícil, ela deixou de estar sempre disponível e os diálogos viraram monólogos onde eu falava e ela respondia dias depois. Mas teimoso não cedi, eu sabia o que sentia, olhava suas fotos, relia nossas conversas, e meu coração lá, selvagem, palpitando forte e inflado de amor.

Então, não sei dizer como, nos tornamos estranhos de novo. Regredimos ao estado inicial e o amor ficou cheio de areia. Eu ainda sentia mas não era mais como antes, como as águas inconstantes do mar os nossos sentimentos marolaram para lugares diferentes. Continuamos as conversas, mais não sentia mais nenhuma verdade, então, eu falei de novo com o "dane-se" ativado: Eu te amo!! E desabafei e despejei em cima dela tudo o que pensava, o que sentia, do meu desejo de ir até ela, ainda que fosse no inferno estava disposto a ir. E ela após um silêncio que me pareceu uma eternidade respondeu que eu podia ir, que eu podia amá-la, que eu podia sentir, que eu podia ser verdadeiro, mas, que não era para esperar o mesmo dela e isso doeu. 

Fiquei magoado, ingênuo e apaixonado não percebi que em todas as vezes que disse que a amava que com risadas e palavras escorregadias ela me respondeu, estava inflado não de amor e sim de ilusões. On-line eu a queria e queria tornar isso tão real quanto minha respiração agora enquanto digito, eu queria dar para ela tudo de mim e ela sem rodeios me disse que não tinha nada para me dar, se ela tivesse me dito que amava outro teria sido menos doloroso.

Então, decidi não mais ficar on-line. Ainda pensava nela, ainda desejava ela, ainda queria ela, mas sem as ilusões tudo ficou tão pequeno e medíocre que passou a ser suportável. Nas poucas vezes que ficava on-line ainda conversávamos, ainda ríamos, ainda era bom, o sentimento era real em mim, mas, eu vi quem ela era e o que sentia e com essa verdade atravessada na minha carne perdi o interesse de continuar conectado. 

Passaram muitos e muitos dias de vazio e então do nada e sem rodeios ela me disse: Sinto sua falta! Onde está o seu amor? Como imaginei nada disso era real! Li suas palavras com pesar e respondi: o amor é verdadeiro, mas, o que você fez com o amor que revelei? Você o rejeitou e disse não ter nada em você para mim, o que mais você quer? Ela disse: Venha a minha cidade! Vamos nos conhecer! Então, tudo o que estava morto voltou a vida, mesmo sem grana comprei as passagens para dali a 45 dias e esses foram os 45 dias mais longos que eu já vivi na minha vida, o coração doía e estava apertado, quando finalmente chegou o dia do embarque, no aeroporto eu era todo agitação, batendo a perna sem parar. Ao aterrissar em sua cidade a encontrei no aeroporto, teria pouco tempo mas, para mim seria o suficiente, precisava ter certeza, precisar ver com meus olhos e se possível com minhas mãos.

Ela era linda e muito simples, estava tímida e tão nervosa quanto eu, ela me conduziu por sua cidade, me contou algumas histórias, suas mãos estavam suadas e frias e eu a olhava, a devorava com os olhos, eu queria saber, então a beijei, primeiro com calma para conhecer o território e ela não apresentou nenhuma resistência e depois a beijei com toda a fome que eu estava sentindo por ela. Ela escorreu pelos meus braços, suspirou em meu pescoço, se enroscou no meu peito, e eu a amei de novo, mas, quanto mais a olhava nos olhos mais ela desviava o olhar, ela não conseguia mantê-los firmes em mim, mas, na hora, não me importei, era real, eu a queria e eu a tinha.

Passeamos pela cidade, comemos juntos, andamos de mãos dadas, eu lhe dei todo o carinho que eu tinha em mim e ela absorvia tudo como uma esponja sem dizer nenhuma palavra, fora: essa rua é isso, aquela casa é aquilo. Andamos de mãos dadas pelas ruas e sorrimos como namorados, mais eu sabia e via claramente onde estava o amor e onde estava a ilusão, quando chegou a hora de eu ir embora, ela em silêncio me acompanhou até o aeroporto e após fazer o check-in ela disse: vou embora! Eu lhe dei o amor que tinha, lhe dei um último beijo, lhe dei os meus braços, cheirei seus cabelos cacheados, senti o calor de sua pele, segurei seu doce rosto em minhas mãos, não queria esquecer nada e queria lembrar com precisão desse tênue limite entre virtual e real, entre o amor e a ilusão, entre expectativa e engano e enquanto saboreava seus lábios eu decidi que não ficaria perdido nesse território perigoso e hostil do mundo on-line onde os sentimentos são indefinidos, não nomeados e revelados. 

Cheguei em minha cidade bem, a viagem foi tranquila e eu estava leve, tudo sobre esse assunto eu deixei espalhado naquela cidade, ficamos muitos dias sem se falar apesar de estarmos conectados e quando finalmente ela falou comigo, disse:


Ela:oi

Eu: oi, td bem?

Ela: td, e vc?

Eu: td bem tbm!


Nós dois não tínhamos mais nenhuma palavra, on-line essa história começou e on-line ela terminou tendo como ponto final o cursor piscando, na expectativa triste e romântica da continuidade de um amor on-line, que na verdade, nunca existiu.