segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O dia mau



Uma estudante acorda pela manhã e, mesmo sentindo uma leve dor de cabeça, cumpre sua rotina matinal e sai para enfrentar o dia. É apenas mais uma manhã, até que o celular toque e ela receba a notícia de um acidente de carro que tira a vida de seus pais e faça a dela desmoronar. O dia mau a alcançou. Não muito distante dali, um jovem executivo acompanha sua mulher em uma ultrassonografia gestacional. O bebê estava bem, crescendo saudavelmente, mas ao ver o médico repetir e repetir o exame, o jovem sente um aperto em seu coração. Seguem-se alguns longos minutos de apreensão até que, por fim, sua esposa está chorando em seus braços, quase desfalecida. Faltava tão pouco para ter nas mãos um menino. Infelizmente, faltaram também as batidas fortes de seu pequeno coração. O dia mau chegou.

Em outra parte do mundo, uma dedicada mãe de família vai a uma consulta de rotina. Seus exames serão apenas revisados. Ela não imagina que será diagnosticado um câncer em sua mama direita e que, nesse momento, iniciará um tortuoso tratamento e uma luta para continuar a sobreviver. Um gerente de banco recém-casado, bastante dedicado, responsável e comprometido com os negócios da instituição, mal sabe que sua diretoria não está satisfeita e o demitirá nessa semana, anunciando outro para seu lugar. Uma menina sabe, pela rede social, que não tem mais namorado e que sua substituta é uma ruivinha, de quem tantas vezes sentiu ciúmes. Enquanto ela chora e quebra seu celular, uma bomba cai na Síria e várias famílias são despedaçadas e tragadas pelo fogo e blocos de concreto. Assim é o dia mau. Ele não avisa. Chega quando não esperamos por ele.

Tão importante quanto os acontecimentos, é a maneira como lidamos, recebemos e tratamos com o que acontece. O dia mau também chegou em minha casa e eu chorei copiosamente enquanto, no consultório do médico, ouvia o diagnóstico sobre pessoa que mais amo e prezo: “Não tem cura, não tem tratamento e nem como reverter esse quadro...”. Por muitos dias eu chorei escondida no meu quarto, pensando, remoendo e me culpando. O dia mau chegou e eu deixei que ele me mastigasse. Não foi a melhor escolha – deixei minha esperança ser engolida. Nesse dia mau, lembrei de Deus apenas para inquiri-lo. Perguntas e queixas sufocaram minha fé, quebraram minhas pernas, e é difícil aceitar que o dia mal foi feito para mim também e que não recebi um passe livre para que ele não bata em minha porta.

Lembro-me também, no entanto, de todos os outros dias maus que vivi e me recordo bem que foi durante eles que fiz as mais sinceras orações, ou consegui demonstrar meus verdadeiros sentimentos. Pedi perdão, disse “eu te amo” e também cantei as músicas com maior emoção. Chorei lágrimas sem nenhuma reserva e aprendi o valor de cada pessoa, e a escrever um texto inteiro. Foi nos dias maus que minha escassa fé foi provada e fortalecida. Foram dias maus que me levaram adiante, mesmo quando pedi para parar, para sumir, para me esconder. Dias maus me forjaram, cavaram minhas sapatas, levantaram minhas paredes e cobriram o meu teto. Dias maus nos constroem.

Nos dias bons, das leves e doces lembranças que guardamos, vemos nossas paredes sendo coloridas, flores sendo trocadas nas janelas e reparamos nos detalhes mimosos que decoram cada canto nosso. É impressionante como ansiamos tanto pelos dias bons, desejamos o seu toque sutil de cor nova e preocupamo-nos com o que falta em alguma parede, e, em contrapartida, como nos escondemos, choramos, nos debatemos, tampamos os ouvidos, perdemos o sono, enquanto relutamos para que sapatas, paredes e telhados sejam levantados.

Não perca a esperança! Ainda que tudo seja perdido, é no dia mau que somos tudo que somos, e esse é apenas um pequeno lembrete.

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