quinta-feira, 7 de maio de 2015

On-line (Conto)




Nos conhecemos on-line. Nos esbarramos por acaso. Algo chamou a atenção dela e algo chamou a minha atenção e então nos tornamos amigos virtuais. On-line conversávamos todos os dias, ríamos juntos todos os dias, sem nenhuma defesa comecei a sentir falta dela quando não estava lá e ela disse estar sentindo a minha também. On-line eram nossas vidas juntos, eu em um estado e ela em outro, então ela partilhou um pouco de seus segredos e eu, encantando com sua doçura entreguei alguns dos meus. Ela era engraçada, inteligente, sensível, ela se importava comigo, reconhecia minha existência, uma estranha on-line que me levou pela mão pelos estranhos caminhos do amor.

Quando percebi já estava muito envolvido e ela dominava minha cabeça, acordava de manhã e ela estava lá, andava pelas ruas e ela estava lá, ia dormir a noite e me revirava na cama pensando nela, e nela e nela, eu passei a ficar on-line 24 horas por ela, não importava mais nem o dinheiro curto, então, em uma conversa já sem conseguir me segurar eu disse: Eu te amo! Ela enviou risos virtuais, me chamou de lindo e nada mais e eu esperei. E de repente o que era fácil ficou difícil, ela deixou de estar sempre disponível e os diálogos viraram monólogos onde eu falava e ela respondia dias depois. Mas teimoso não cedi, eu sabia o que sentia, olhava suas fotos, relia nossas conversas, e meu coração lá, selvagem, palpitando forte e inflado de amor.

Então, não sei dizer como, nos tornamos estranhos de novo. Regredimos ao estado inicial e o amor ficou cheio de areia. Eu ainda sentia mas não era mais como antes, como as águas inconstantes do mar os nossos sentimentos marolaram para lugares diferentes. Continuamos as conversas, mais não sentia mais nenhuma verdade, então, eu falei de novo com o "dane-se" ativado: Eu te amo!! E desabafei e despejei em cima dela tudo o que pensava, o que sentia, do meu desejo de ir até ela, ainda que fosse no inferno estava disposto a ir. E ela após um silêncio que me pareceu uma eternidade respondeu que eu podia ir, que eu podia amá-la, que eu podia sentir, que eu podia ser verdadeiro, mas, que não era para esperar o mesmo dela e isso doeu. 

Fiquei magoado, ingênuo e apaixonado não percebi que em todas as vezes que disse que a amava que com risadas e palavras escorregadias ela me respondeu, estava inflado não de amor e sim de ilusões. On-line eu a queria e queria tornar isso tão real quanto minha respiração agora enquanto digito, eu queria dar para ela tudo de mim e ela sem rodeios me disse que não tinha nada para me dar, se ela tivesse me dito que amava outro teria sido menos doloroso.

Então, decidi não mais ficar on-line. Ainda pensava nela, ainda desejava ela, ainda queria ela, mas sem as ilusões tudo ficou tão pequeno e medíocre que passou a ser suportável. Nas poucas vezes que ficava on-line ainda conversávamos, ainda ríamos, ainda era bom, o sentimento era real em mim, mas, eu vi quem ela era e o que sentia e com essa verdade atravessada na minha carne perdi o interesse de continuar conectado. 

Passaram muitos e muitos dias de vazio e então do nada e sem rodeios ela me disse: Sinto sua falta! Onde está o seu amor? Como imaginei nada disso era real! Li suas palavras com pesar e respondi: o amor é verdadeiro, mas, o que você fez com o amor que revelei? Você o rejeitou e disse não ter nada em você para mim, o que mais você quer? Ela disse: Venha a minha cidade! Vamos nos conhecer! Então, tudo o que estava morto voltou a vida, mesmo sem grana comprei as passagens para dali a 45 dias e esses foram os 45 dias mais longos que eu já vivi na minha vida, o coração doía e estava apertado, quando finalmente chegou o dia do embarque, no aeroporto eu era todo agitação, batendo a perna sem parar. Ao aterrissar em sua cidade a encontrei no aeroporto, teria pouco tempo mas, para mim seria o suficiente, precisava ter certeza, precisar ver com meus olhos e se possível com minhas mãos.

Ela era linda e muito simples, estava tímida e tão nervosa quanto eu, ela me conduziu por sua cidade, me contou algumas histórias, suas mãos estavam suadas e frias e eu a olhava, a devorava com os olhos, eu queria saber, então a beijei, primeiro com calma para conhecer o território e ela não apresentou nenhuma resistência e depois a beijei com toda a fome que eu estava sentindo por ela. Ela escorreu pelos meus braços, suspirou em meu pescoço, se enroscou no meu peito, e eu a amei de novo, mas, quanto mais a olhava nos olhos mais ela desviava o olhar, ela não conseguia mantê-los firmes em mim, mas, na hora, não me importei, era real, eu a queria e eu a tinha.

Passeamos pela cidade, comemos juntos, andamos de mãos dadas, eu lhe dei todo o carinho que eu tinha em mim e ela absorvia tudo como uma esponja sem dizer nenhuma palavra, fora: essa rua é isso, aquela casa é aquilo. Andamos de mãos dadas pelas ruas e sorrimos como namorados, mais eu sabia e via claramente onde estava o amor e onde estava a ilusão, quando chegou a hora de eu ir embora, ela em silêncio me acompanhou até o aeroporto e após fazer o check-in ela disse: vou embora! Eu lhe dei o amor que tinha, lhe dei um último beijo, lhe dei os meus braços, cheirei seus cabelos cacheados, senti o calor de sua pele, segurei seu doce rosto em minhas mãos, não queria esquecer nada e queria lembrar com precisão desse tênue limite entre virtual e real, entre o amor e a ilusão, entre expectativa e engano e enquanto saboreava seus lábios eu decidi que não ficaria perdido nesse território perigoso e hostil do mundo on-line onde os sentimentos são indefinidos, não nomeados e revelados. 

Cheguei em minha cidade bem, a viagem foi tranquila e eu estava leve, tudo sobre esse assunto eu deixei espalhado naquela cidade, ficamos muitos dias sem se falar apesar de estarmos conectados e quando finalmente ela falou comigo, disse:


Ela:oi

Eu: oi, td bem?

Ela: td, e vc?

Eu: td bem tbm!


Nós dois não tínhamos mais nenhuma palavra, on-line essa história começou e on-line ela terminou tendo como ponto final o cursor piscando, na expectativa triste e romântica da continuidade de um amor on-line, que na verdade, nunca existiu.

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